Primeira visita à Prisão
27 Outubro 2006. - Visita à EPR de AveiroDepois de muito batalharmos por uma ida a uma das prisões, surgiu o convite das técnicas para irmos à festinha de despedida, com uma pequena peça de Teatro encenada pelas técnicas e representado por elas e reclusos.
No dia anterior estava toda estusiasmada a imaginar mil e um cenários, de como seria o espaço, como seriam os reclusos e as reclusas.
Seriamos revistos?
será que apitaria meu piercing no detector de metais?
Como é que eles nos veriam?
Beijinho ou hands shake?
Na 6feira tinhamos que estar no ponto de encontro às 8.30 da manha, madrugada portanto. Variavelmente, acordei bem disposta, enérgica, espevitada, mas claro, já atrasada...
Apanhei um táxi e lá cheguei "just in time". Para sorte minha, ainda sobrou tempo para o cafezinho matinal, pois nem a Big Boss, nem a Rosinha tinham ainda chegado.
Partimos a todo gás, para o Bairro Norton de Matos onde nos esperavam com um bolo de 6kg em punho e ainda sacos com pacotes de sumo, e sumo e ainda mais sumo. [que por sinal sobrou a potes]
Já atrasadíssimos, lá fomos os 5 - eu, adilio, luisinha, rosinha e Big Boss - no seu Passat TDI de gás pela auto-estrada a bater os 180km/h ( eu que tenho trauma das velocidades), enquanto eu atrás me agarrava que nem lapa ao banco.
Contudo, agradeço o bendito Passat que nos livrou de um possivel acidente, quando de repente, o Punto que seguia em frente trava e guina para a direita, rodopiando logo de seguida, porque um espertinho se meteu à frente e para o Punto nao lhe bater, guinou para a direita e fez um pião... E quem ia atrás?... Nós claro. Dos 150km/h para os 0 Km/h, num espaço de um metro. Bendito Passat.
O que se passou de seguida era digno de se filmar. A policia a esbraçejar, o outro a fugir e os ocupantes do Punto inertes parecendo múmias. Contudo, seguimos.
O atraso de 30min inicialmente,passou logo para os 10m graças ao Passat, que nos levou de jacto. De sacas e sacas de sumo, guardanapos, diplomas e o bolo que por milagre nao se desfez depois de tamanha travagem, lá fomos todas contentes quase a pender para um dos lados, tal era o peso da tralha que levávamos.
Depois do cumprimentos, às técnicas X, Y e Z, apresentámos os BIs ao Srs. guardas, deixámos as nossas pochetes no sala trancada e lá levámos o esqueleto para a salinha onde iria decorrer a Festa.
Quando chegámos já levávamos as peças do cenário: Quando abrimos porta, 30 olhos voltaram-se para nós. Parei, sorri, e tentei agir normalmente, com o bicho da ansiedade dentro de mim... Rapidamente arranjei qualquer coisa para fazer, para distrair aqueles olhares inquietos e curiosos a tentar descortinar quem seriam estes dois estranhos novatos. Tal como dois meninos bem comportados, lá faziamos o que a Rosinha nos mandava fazer.
Coma as cadeiras já postas em filas paralelas lá foram chegando os reclusos-espectadores. Primeiro os homens. Depois as mulheres com fila reservada só para elas. Não se podem misturar.
Rapidamente, nos vem cumprimentar o cigano-mor , o Sr. Ramirez e a cigana -mor, a Sra. Ramirez, marido e mulher qu lá dentro dominam o clã Ramirez, composto por filhas/filhos, genros/genras cunhadas/cunhados, primas/primos. Mas nao se pense que se trata de um casal qualquer. Trata-se de um casal extremamente carinhosos um com outro [ de invejar, até], e extremamente educados simpáticos e acolhedores connosco. O Sr. Ramirez, tal como em qualquer ocasião festiva, colocou o seu melhor traje de gala. Uma personagem, este Ramirez, um verdadeiro gentleman! Excelente pessoa. Causa provável - tráfico de droga.
A peça foi recheada de imprevistos. Primero, a hipófise, uma das personagens principais, saiu em prisão domiciliária um dia antes. Nao havia, portanto, a Hipófise. No calor da coisa, perguntara-nos se um de nós poderia desepenhar esse papel, ao qual eu prontamente me disponibilizei. No entanto, a luisinha com o seu bom senso, lá voltou atrás com a decisão e propôs à Rosinha fazer de Hipófise. Entretanto, um dos reclusos, talvez um dos mais novatos, havia embirrado que só ele fazia de narrador e que se não fosse narrador nao fazia nada e ainda ameaçou que se não fosse "O NARRADOR", nao haveria peça... A imaturidade reina por aqueles lados e face à pressão já existente, prontamente lhe foi respondido que seria ele o narrador.
Depois do rebuliço, lá começou a peça, com todos empenhados! Foi lindo de ver, aquele entusismo... Pareciam crianças em dia de festa! A maior parte deles tinham tido o cuidado de não fumarem, cheirarem ou injectarem fosse o que fosse, para que a peça nao corresse mal. E pelos vistos resultou, porque raramente se esqueciam das falas. Mesmo os enganos tinham a sua graça, no meio do nervoso miudinho que se sentia entre todos.
Depois da peça e dos aplausos, chegara a hora da atribuição dos diplomas. Um a um, iam sendo chamados a receber o seu respectivo. Cada um com direito à sua dose de aplausos.
Já com o estomâgo a dar as horas, chegou-se ao momento do repasto. Uma fatia de bolo e um copo de sumo para cada um, dividido irmamente. Eu e o Adílio distribuíamos os copos de sumo, e as "inhas" a parte do bolo que lhe cabiam em sorte.
No final, discurso do Director, da Big Boss e um agradecimento muito grande a todos os participantes e técnicas envolvidas... e uma leve esperança de continuar o projecto!
A ver, em Dezembro.

